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Estudo aponta que enchentes e deslizamentos serão mais frequentes na capital paulista

por INPE
Publicado: Jun 15, 2010
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São José dos Campos-SP, 15 de June de 2010

Imagem Estudo aponta que enchentes e deslizamentos serão mais frequentes na capital paulista

As mudanas no clima que indicam aumento de dias com chuvas intensas e mais freqentes e as projees de crescimento da populao na Regio Metropolitana de So Paulo, que dever dobrar de tamanho nos prximos 20 anos, especialmente nas periferias, aumentaro significativamente os riscos de enchentes, inundaes e deslizamentos, atingindo principalmente os mais pobres, alm de provocar maior ocorrncia de lepstopirose e doenas respiratrias. 

Estudos preliminares do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sugerem que, entre 2070 e 2100, uma elevao mdia na temperatura da regio de 2C a 3C poder dobrar o nmero de dias com chuvas intensas (acima de 10 milmetros) na capital paulista. A previso de um aumento no nmero de dias e noites quentes e diminuio no nmero de dias e noites frios.

Esses cenrios constam do relatrio Vulnerabilidade das Megacidades Brasileiras s Mudanas Climticas: Regio Metropolitana de So Paulo, divulgado nesta tera-feira (15/06), em So Paulo, e se referem a projees climticas para os prximos 20 anos e cenrios futuros entre 2070 e 2100 para a regio. Para isso, os pesquisadores aplicaram um modelo de projeo de mancha urbana associado ao modelo Hand, que permitiu identificar as possveis reas que seriam ocupadas no futuro e o risco potencial, caso o padro de uso e ocupao do solo atual se perpetue sem nenhuma alterao e controle.

Segundo o relatrio, mais de 20% da rea total da expanso urbana da Regio Metropolitana de So Paulo em 2030 estar vulnervel e poder eventualmente ser afetada por acidentes naturais provocados pelas chuvas. Aproximadamente 11,17% dessas novas ocupaes podero ser reas de risco de deslizamento.

O relatrio foi coordenado pelo Centro de Cincia do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CST/INPE) e pelo Ncleo de Populao da Universidade Estadual de Campinas (NEPO/UNICAMP) e contou com a participao de outras instituies de pesquisa do pas.

Ocupao do solo
Hoje, cerca de 30% da populao da Regio Metropolitana de So Paulo, ou seja, 2,7 milhes de pessoas vivem em comunidades, cortios e habitaes precrias, quase sempre ilegais. So concentraes significativas de reas de risco de escorregamentos localizadas na Zona Sul (Jabaquara, Cidade Ademar, Pedreira, Cidade Dutra, Jardim ngela, Capo Redondo e Campo Limpo). Nessa regio, esto concentradas mais de 50% das favelas em So Paulo.

Nas demais regies, as reas de risco localizam-se na Zona Oeste (Butant e Jaguar); na Zona Norte (Perus, Pirituba, Jaragu, Brasilndia, Freguesia do e Trememb); e na Zona Leste (Sapopemba, So Mateus, Aricanduva, Vila Formosa, Vila Prudente e Itaquera). 

Principais Cenrios de Risco 

Enchentes e inundaes
Apesar dos investimentos realizados ao longo dos ltimos anos, as enchentes continuaro a ocorrer em razo do crescimento urbano da regio e da dinmica natural das cheias e das grandes intervenes nos cursos dgua (canalizao dos crregos) realizadas no passado. Os impactos disso atingem habitaes, atividades industriais, comerciais e de servios pblico e privado e o sistema de transporte urbano e rodovirio. A tendncia de aumento da frota de veculos em circulao e a expanso das vias em reas de vrzea para atender esse crescimento da demanda de trfego tendem a aumentar o grau de veculos e pessoas expostas aos riscos de inundaes.

Enchentes e inundaes com alta energia de escoamento
As reas mais altas na periferia de So Paulo permitem a ocorrncia de enchentes de grande volume e velocidade das guas, em razo do alto declive dos terrenos marginais. Enchentes desse tipo podem causar a destruio de edificaes, de obras de infraestrutura urbana, danos materiais diversos e colocar em risco a integridade fsica das pessoas residentes em reas ribeirinhas. Ocupaes pelo homem ao longo de cursos dgua sujeitos a enchentes desse tipo podem ser gravemente atingidas, acarretando o assoreamento de alguns trechos e aumentando a condio de ocorrncia de inundaes.

Enxurradas com alto potencial de arraste
Escoamentos pluviais concentrados ao longo dos cursos dgua ou em vias pblicas so responsveis pela maior parte das mortes durante chuvas intensas na Regio Metropolitana, quando pessoas so levadas pelas guas. A canalizao de crregos e construo de vias pblicas em fundos de vale provocaram ao longo do tempo um cenrio de risco na ocorrncia de enxurradas ao longo de vias pblicas, em sub-bacias urbanizadas, onde ocorre a concentrao das guas superficiais. As enxurradas ocorrem tanto nas reas consolidadas quanto nas reas de periferia da urbanizao metropolitana, e se caracterizam pelo grande poder de acumulao das guas superficiais e alto poder destrutivo e de arraste.

Alagamentos
Os alagamentos localizados ocorrem de forma generalizada em diversos pontos, principalmente por deficincias do sistema de drenagem urbano. Os alagamentos so geralmente acumulaes rasas de lminas dgua que afetam as vias pblicas, causando transtornos momentneos para a circulao de pedestres e veculos.

Lixo lanado nos cursos dgua
Cerca de 6 mil residncias lanam o lixo diretamente nos cursos dgua na Regio Metropolitana, contribuindo para sua obstruo e assoreamento. Alm disso, detritos slidos so carregados pelas enxurradas, captados pela rede hidrogrfica e levados para os trechos de menor declive do leito onde so depositados. Esses locais situam-se, em geral, no Rio Tiet. Com o aumento de chuvas cada vez mais intensas, os reservatrios de deteno sofrero srios danos se no forem projetados com dispositivos que dificultem a entrada dos sedimentos de fundo e do lixo.

Escorregamentos de massa em encostas
As reas de risco de escorregamentos por ocupao desordenada das encostas localizam-se principalmente em reas de expanso urbana mais recentes, especialmente nas ltimas 30 dcadas.

Eventos pluviomtricos mais severos
A anlise das projees climticas para a Regio Metropolitana  mostra que a incidncia de chuvas mais intensas e severas - superiores a 100 milmetros -, dever ser maior em algumas regies com concentrao de reas de risco de escorregamentos e enchentes e inundaes, o que incrementar a condio de vulnerabilidade.

Medidas de adaptao

O relatrio aponta medidas de adaptao que as cidades da Regio Metropolitana e suas instituies pblicas e privadas tero que enfrentar em busca de solues para os impactos e perigos que sofrero. Entre elas, esto maior controle sobre construes em reas de risco, investimentos em transportes coletivos, sobretudo o ferrovirio, proteo aos recursos naturais e criao de reas de proteo ambiental nas reas de vrzeas de rios (como os parques lineares propostos pela prefeitura de So Paulo e governo do Estado) e investimentos em pesquisas voltadas para a modelagem do clima, quantificao de benefcios decorrentes de medidas de adaptao s mudanas climticas, entre outras.

No entanto, o relatrio aponta que o processo para adaptao s mudanas climticas comea com a tomada de conscincia do risco ambiental, tecnolgico e social que se projeta no futuro. Somente com uma populao consciente desses riscos ser possvel o debate transparente e participativo sobre as alternativas para mitig-los. fundamental construir o espao de negociao capaz de envolver os setores pblicos e privados, como tambm o terceiro setor, na construo de uma poltica metropolitana para enfrentar os efeitos das mudanas climticas, que se manifeste em programas de curto, mdio e longo prazo e que se concretize em projetos alternativos de uso e ocupao do territrio.

necessrio iniciar um processo permanente de avaliao ambiental estratgica e constante monitoramento, que indique meios de desenvolvimento limpo/sustentvel para a Regio Metropolitana de So Paulo no sculo XXI. Nesse sentido, o relatrio sugere algumas diretrizes:

 O poder pblico dever tornar obrigatria a avaliao da dimenso climtica nos processos decisrios referentes s polticas pblicas; implantao de uma rede de monitoramento climtico cobrindo a Regio Metropolitana; avaliao dos impactos das mudanas climticas sobre a sade humana, promovendo medidas para reduo ou preveno dos impactos; atrao de investimentos para a  implantao de projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e de outros mecanismos internacionais do mercado de carbono; aplicao de recursos vinculados destinados pesquisa cientfica voltados adaptao da sociedade s mudanas do clima.
 O Poder Executivo local dever publicar um Plano de Ao Integrado para implementao de objetivos comuns (rgos e setores da sociedade) visando minimizar os impactos das mudanas climticas, a ser elaborado pelas instituies tcnicas responsveis com a participao da sociedade civil atravs de discusses em fruns e plenrias.
 Atravs de uma ao conjunta, rgos pblicos como Defesa Civil e Prefeituras Municipais da regio devero criar instrumentos de restrio impermeabilizao das reas urbanas, tais como: Coibir a construo de novos edifcios em reas com declividade acentuada e de preservao permanente atravs do controle de alvars e licenas; implantar um de Sistema de Alerta a Enchentes, Inundaes e Deslizamentos na Bacia do Alto Tiet, envolvendo a populao, a defesa civil e rgos competentes.
 As Secretarias da Fazenda e Planejamento devero quantificar os benefcios decorrentes das medidas de adaptao s mudanas climticas, uma vez que esta constitui uma alternativa extremamente necessria para a viabilizao de aes. Uma das abordagens que dever ser adotada refere-se quantificao dos danos evitados quanto aos aspectos de bens, propriedades, equipamentos, produo, paralisao do processo produtivo, atrasos nos deslocamentos, sobrecargas dos servios pblicos de sade e salvamento (hospitais, emergncias etc.).

Implicaes na sade

As mudanas climticas podero afetar a sade da populao humana de diversas maneiras. O relatrio mostra que alguns impactos podero ser observados nos prximos anos, como os relacionados s alergias, com o aumento da incidncia de rinite alrgica e asma e a intensidade e durao dos sintomas por causa da poluio atmosfrica. Invernos mais quentes podem resultar em um incio mais precoce da estao de plen de grama ou de outras plantas, aumentando suas concentraes na atmosfera. Partculas provenientes do diesel so outro agravante, pois transportam substncias que provocam alergias para os pulmes. 

Alteraes na temperatura e na umidade do ar podem contribuir com a proliferao de agentes infecciosos. Bactrias, fungos e vrus tambm so especialmente sensveis em condies mais quentes e podem crescer rapidamente. De forma geral, a mudana no clima pode provocar a migrao de doenas de clima quente para zonas mais temperadas. Com isso, os sistemas de sade precisaro se readequar para dar conta dessa demanda.

Os impactos sade podem ser divididos em imediatos e de mdio e longo prazo. Os imediatos incluem afogamentos e ferimentos das vtimas ao serem atiradas contra objetos quando levadas pela correnteza. Os de mdio prazo so as doenas que podem ocorrer por causa da ingesto de gua contaminada (doenas intestinais e hepatite A), ou contato com gua contaminada (leptospirose). A chuva excessiva facilita o acesso de esgotos a cu aberto aos reservatrios de gua potvel, aumentando a probabilidade de doenas transmitidas pela gua. Alm disso, manifestaes alrgicas e doenas respiratrias podem se espalhar mais facilmente em abrigos lotados.


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