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4ª Comunicação Nacional do Brasil à UNFCCC terá abordagem interdisciplinar

por INPE
Publicado: Out 05, 2018
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São José dos Campos-SP, 05 de outubro de 2018

Imagem 4ª Comunicação Nacional do Brasil à UNFCCC terá abordagem interdisciplinar

A abordagem interdisciplinar é uma das principais novidades do recém-iniciado processo de elaboração do capítulo Vulnerabilidade e Adaptação à Mudança do Clima da 4ª Comunicação Nacional do Brasil à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Enquanto na Terceira Comunicação Nacional (TCN) as análises de impactos foram organizadas por setores estratégicos (Biodiversidade, Agricultura, Recursos Hídricos, Energias Renováveis, Desastres naturais de origem hídrica e Saúde) e não se aprofundaram no aspecto social, agora os grupos de trabalho estão estruturados por segurança (hídrica, alimentar, energética e socioambiental – esta última subdividida em socioeconômica e socioambiental).

As estratégias para a 4ª Comunicação Nacional do Brasil (4CN) foram discutidas na III Reunião Técnica da componente Impactos, Vulnerabilidade e Adaptação (IVA), realizada nos dias 19, 20 e 21 de setembro no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos (SP).

O encontro marcou o início formal do processo de elaboração do documento e contou com a participação de coordenadores e supervisores, representando a academia (Rede Clima) e a área técnica (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações - MCTIC), e de pontos focais e consultores contratados para a redação e integração final dos capítulos.

O principal objetivo do encontro foi promover o alinhamento entre consultores, coordenação do projeto 4CN e Rede Clima sobre o escopo e processo de desenvolvimento dos estudos de IVA por seguranças, bem como atividades relacionadas à modelagem climática.

“Na vida real, você não pensa, por exemplo, em agricultura, mas em segurança alimentar, que envolve pesca, suínos, aves, qualidade dos grãos, entre outros aspectos. Então, a ideia de abordagem por segurança nos traz mais para perto da realidade”, afirmou o pesquisador José Marengo (Cemaden), que divide a coordenação técnica da componente IVA com Marcel Bursztyn (UnB), também pesquisador, ambos pela Rede Clima. “A ideia da segurança socioambiental veio para integrar tudo isso com o aspecto social, os impactos na população. Essa estratégia está muito melhor em relação à Terceira Comunicação Nacional”, avalia Marengo.

Outra mudança importante no processo de elaboração da 4CN está ligada aos dados de modelagem climática que irão subsidiar os estudos de IVA. Será adotada a abordagem por níveis de aquecimento médio global como padrão para as análises, tendo como parâmetro os valores de 1,5°C, 2°C e 4°C. Serão produzidas tabelas comparativas contemplando os diferentes modelos climáticos e RCPs* (Representative Concentration Pathways, na sigla em inglês) utilizados, relacionando os níveis de aquecimento com os horizontes temporais correspondentes, visando oferecer elementos para o planejamento da adaptação por parte dos gestores e tomadores de decisão.

A programação da reunião foi estruturada em três partes:

  1. Apresentações dos pontos focais e consultores sobre a estrutura de trabalho das quatro seguranças, incluindo levantamentos sobre impactos, estado da arte e expectativas.
  2. Exercício para os Grupos de Trabalho por segurança (com a rotação de participantes, à exceção dos pontos focais e consultores) para discutir a questão: “Quais insumos podem ser utilizados para caracterizar e projetar os impactos (relacionados a cada segurança)?”.
  3. Apresentação dos coordenadores da sub-rede Modelagem Climática da Rede Clima sobre os as possibilidades para o fornecimento de dados que subsidiarão os trabalhos dos pontos focais e consultores em cada segurança.

“Um dos pontos mais importantes destes três dias de trabalho foi termos conseguido operacionalizar algo que sempre esteve presente na filosofia da Rede Clima, mas que ainda não havia sido desenvolvido concretamente, que é a conexão entre o que se passa no mundo acadêmico com as demandas efetivas do Estado e da sociedade”, afirmou o pesquisador Marcel Bursztyn (UnB). “Isso não é fácil, envolve uma série de debates e estratégias para fazer convergir os pontos de vista dos diferentes especialistas, para que não resulte tão somente em uma soma de relatos especializados, para que seja de fato algo integrador. Por isso essa metodologia de quatro principais eixos de segurança”, concluiu.

A coordenadora nacional do projeto da 4CN, Lidiane Melo (MCTIC), ressaltou o papel da academia no processo de elaboração do documento do governo. “A massa crítica que conseguimos mobilizar nestes três dias fará todo o diferencial para esse capítulo que trata de IVA. Alguns entendimentos que precisávamos alinhar foram balizados aqui”, explicou. Para a tecnologista do MCTIC, embora a abordagem integradora seja uma tendência global, ainda há poucas aplicações práticas na área de Clima. “Nós estamos dando os primeiros passos para que isso realmente se concretize. Não será perfeito, mas com certeza teremos dado um passo adiante. Para além do documento de governo, o diferencial dessa abordagem é trazer elementos que de fato sejam práticos e úteis aos gestores e tomadores de decisão”.

O Plano de Trabalho da componente Vulnerabilidade de Adaptação deverá ser concluído ainda em outubro, trazendo definição de escopo, demandas específicas por segurança e prazos limites para inputs. A previsão é concluir os trabalhos da 4CN em março de 2019.

Estrutura da componente IVA da Quarta Comunicação Nacional
Estrutura da componente IVA da Quarta Comunicação Nacional

*Os “Caminhos Representativos de Concentração” (RCPs) foram utilizados pelo IPCC em seu Quinto Relatório de Avaliação de 2014. Cada um dos quatro cenários considera o histórico evolutivo de diversos fatores, como a forçante radiativa na atmosfera, emissão de gases, concentração de gases de efeito estufa, e informações de tipo de cobertura terrestre, para as projeções. Nos RCPs, o balanço de radiação é calculado pela razão entre a quantidade de radiação solar que entra e que sai da Terra e, de acordo com as concentrações de gases de efeito estufa e aerossóis, se obtém o quanto de energia ficou armazenada no sistema terrestre.

(Fonte: Nobre, C. & Marengo, J (Orgs.). Mudanças Climáticas em Rede: um olhar interdisciplinar. São José dos Campos: INCT, 2017)


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