Número 08
Informativo INPE - 05 de Janeiro de 2017



Coordenadora-Geral de Observação da Terra, Leila Fonseca
 

A Coordenação de Observação da Terra (OBT), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), prevê no Plano Diretor e no Plano Plurianual (PPA), ambos para o período 2016-2019, a extensão do mapeamento e monitoramento do desmatamento e da cobertura da terra para todos os biomas brasileiros. A iniciativa vem de encontro ao Programa de Monitoramento Ambiental dos Biomas Brasileiros (PMABB), lançado no ano passado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), e poderá ser estratégica para algumas atividades de P&D da OBT/INPE, como afirma a coordenadora da área, Leila Fonseca, nesta entrevista.

Parte dos recursos para expandir o monitoramento dos biomas virá do Fundo Amazônia, geridos pelo BNDES. O Fundo Amazônia é constituído por pagamentos externos de créditos de carbono, das políticas do REDD+ (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação florestal). Tais recursos foram repassados ao país devido aos esforços nos últimos anos de políticas públicas e fiscalização ambiental que diminuíram o desmatamento da Amazônia e, consequentemente, a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera.

As ações governamentais que levaram à redução da taxa de desmatamento tiveram como subsídio os dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES), da OBT/INPE. Foi também baseado nos dados do PRODES que o Brasil apresentou para o UNFCCC (United Nations Framework Convention on Climate Change), em 2014, o "nível de referência do desmatamento da cobertura florestal na Amazônia". A partir desse processo, viabilizaram-se os pagamentos externos de crédito carbono para o país, alocados no BNDES, para ações de mitigação e adaptação das mudanças do clima.

Nesta edição do INPE Informa, que dá sequência à série de entrevistas sobre o Plano Diretor em cada área do INPE, a coordenadora de Observação da Terra (OBT), Leila Fonseca, explica como o Programa de Monitoramento Ambiental dos Biomas Brasileiros, por meio de projetos, poderá dar sustentabilidade a boa parte das pesquisas e desenvolvimentos da área. O monitoramento do desmatamento e uso da terra dos biomas tem ampliado a recepção de dados e imagens de satélites no INPE, impondo a necessidade de novos métodos de extração de informação e inovação na área de processamento e análise de grandes bases de dados de observação da Terra. Confira a entrevista.

- Como você avalia o Plano Diretor anterior (2011-2015) em relação ao atual (2016-2019), quais são as perspectivas de avanços?

Leila Fonseca – Eu não participei ativamente da elaboração do Plano Diretor anterior, assumi a coordenação da OBT há quase três anos. Mas um dos Objetivos Estratégicos do Plano Diretor 2011-2015 era a manutenção da infraestrutura de controle de satélites, recepção e disseminação de dados espaciais do INPE, que são atividades de responsabilidade da Divisão de Geração de Imagens (DGI), da OBT, e que foram realizadas, mesmo diante do problema de escassez de recursos humanos. No período de 2011-2015 chegamos a receber 15 missões espaciais que incluem satélites meteorológicos e de observação da Terra, como o Landsat-7, o Landsat-8, o CBERS-4, a partir do final de 2014, o Resourcesat-2, satélite indiano, e o satélite DMC-2 (Disaster Monitoring Constellation), do Reino Unido, nos anos 2012 e 2013. Desde setembro de 2016 estamos recebendo dados dos satélites DMC-2 e DEIMOS para atender os projetos de monitoramento do desmatamento e degradação da Amazônia (PRODES, DETER, DEGRAD e DETEX). Estes dois últimos são satélites com resolução espacial de 22 metros, que complementam os dados dos satélites Landsat-8, CBERS-4 e ResourceSat-2 para contornar o problema de cobertura de nuvens.

Nesse período de 2011-2015, ampliamos bastante o número de usuários de dados de satélites distribuídos pelo Centro de Dados de Sensoriamento Remoto (CDSR), do INPE, que fica em Cachoeira Paulista. Várias empresas privadas e públicas, ONGs, prefeituras municipais, universidades, IBAMA, INCRA, Petrobras, Ministério da Defesa, Ministério do Meio Ambiente, entre outros, usam os dados disponibilizados no catálogo do INPE. Temos mais de 208 mil usuários cadastrados para acesso ao CDSR e mais de 3 milhões de cenas distribuídas desde 2004. Hoje, o CDSR gerencia um acervo de aproximadamente 1,5 petabytes de dados que cresce 50 gigabytes, em média, por dia. Por isso, a infraestrutura de hardware, software, rede e instalações deve ser sempre atualizada. 

Temos mais de 208 mil usuários cadastrados para acesso ao CDSR [Centro de Dados de Sensoriamento Remoto] e mais de 3 milhões de cenas distribuídas desde 2004. Hoje, o CDSR gerencia um acervo de aproximadamente 1,5 petabytes de dados que cresce 50 gigabytes em média por dia

- Há algum custo nessas imagens?

Leila Fonseca - Não, essas imagens são distribuídas sem custo ao usuário através da internet. Isso foi um feito do Gilberto Câmara, então coordenador da OBT, que em 2004 se empenhou para que esses dados fossem públicos. Após a liberação das imagens pelo INPE, os americanos começaram a disponibilizar também de forma livre as imagens do Landsat, através da USGS (United States Geological Survey). Revistas especializadas destacaram que os americanos estavam seguindo os brasileiros nessa iniciativa. E isso já está acontecendo também com as imagens da Agência Espacial Europeia (ESA) através do Programa Copernicus. As imagens dos satélites da série Sentinel são também distribuídas sem custo. A tendência hoje é as agências espaciais disponibilizarem dados de satélite de forma livre. 

Para a OBT isso é importante porque esses dados são o insumo para se produzir pesquisa e gerar produtos, a partir de dados de observação da Terra, úteis para auxiliar na construção de políticas públicas e gerar benefícios à sociedade brasileira. Com essa simples iniciativa e a formação de especialistas na pós-graduação de Sensoriamento Remoto (PGSER), do INPE, fomentou-se a criação de empresas que prestam serviços em sensoriamento remoto. Houve, então, um aumento no número de empresas prestadoras de serviço no Brasil. Aqui em São José dos Campos, por exemplo, temos empresas na área de sensoriamento remoto que foram criadas por pesquisadores que estudaram na PGSER. Muitos ex-alunos são sócios proprietários ou trabalham nessas empresas como, por exemplo, a Geopixel, Imagem, Geoambiente, Santiago&Cintra ou atuam em grandes empresas como Petrobras e Vale. Além disso, muitos ex-alunos da PGSER tornaram-se professores em outras universidades que, por sua vez, expandiram o número de especialistas em sensoriamento remoto no Brasil. 

A OBT foi pioneira nessa área, o que nos remete a 1967, quando foi implantado o Projeto Sensoriamento Remoto (SERE) com o objetivo de capacitar recursos humanos na área de sensoriamento remoto e construir infraestrutura de recepção de dados de satélites em Cuiabá - para receber as primeiras imagens do satélite da série Landsat - e de processamento de imagens (Sistema I100). Nessa época vários pesquisadores foram para o exterior para se capacitar por meio de uma cooperação científica com a NASA em diversas áreas de pesquisa como Geografia, Agricultura, Floresta, Hidrologia, Oceanografia, Geologia, Poluição e Arqueologia. Essas iniciativas, da década de 1970, tornaram-se um marco para o INPE, hoje um instituto de excelência no uso das tecnologias de sensoriamento remoto e produção de informação a partir de dados de observação da Terra. 

- Para o plano diretor de 2011-2015, você disse que havia 15 missões espaciais. Esse número deve aumentar nos próximos anos?

Leila Fonseca – Para esse período de 2016-2019 prevemos receber dados da constelação de Satélites Cosmic 2, para o Embrace (Programa de Estudos e Monitoramento Brasileiro do Clima Espacial). Os dados serão recebidos e armazenados no CDSR. Está previsto, também para 2017, a recepção dos dados do satélite GOES-R, que foi lançado neste ano, em 19 de novembro. Para viabilizar a recepção do GOES-R, as coordenações do CPTEC (Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos), CEA (Ciências Espaciais e Atmosféricas), CCST (Centro de Ciência do Sistema Terrestre) e OBT formaram um consórcio para comprar a estação terrena de recepção, armazenamento e processamento do GOES-R. Esses dados possuem potencial para desenvolver uma série de aplicações na área de oceanografia, com ênfase na utilização do produto de Temperatura da Superfície do Mar (TSM), estimativa de correntes oceânicas superficiais, gerenciamento de ecossistemas marinhos, que são linhas de pesquisa da OBT.

Todo esse esforço com essas missões de observação da Terra é para atender a vários projetos do INPE e de outras instituições brasileiras, que demandam tecnologias espaciais cada vez mais avançadas. O DETER, por exemplo, um dos sistemas que monitoram o desmatamento na Amazônia, produz alertas de alteração da cobertura florestal, diariamente, cujos dados são utilizados pelo IBAMA para ações de fiscalização. O DETER começou a gerar alertas em 2004 a partir de imagens MODIS de baixa resolução espacial, 250 metros, com área mínima mapeada de 25 ha. Evoluímos com o uso da câmera AWiFS (Advanced Wide-Field Sensor) a bordo do satélite Resoucesat-2, com resolução de 56 metros, e a WFI (Wide Field Imager) do CBERS-4, com 64 metros de resolução. Esse salto, de uma resolução espacial de 250 metros para 60 metros, permitiu identificar polígonos de desmatamento menores, com área mínima de 3,0 ha. 

 

 

Nos últimos anos, a OBT/INPE promoveu a melhoria da resolução espacial do DETER permitindo
o aprimoramento da fiscalização do desmatamento ilegal na Amazônia


- Quando exatamente aconteceu essa evolução?

Leila Fonseca - No ano passado fizemos o protótipo e os testes e, neste ano, lançamos o DETER-B, que gera mapas de desmatamento e degradação da floresta amazônica a partir de imagens dos sensores WFI (CBERS-4) e AWiFS (Resourcesat-2). A divulgação do novo sistema foi feito junto ao Ministério do Meio Ambiente e ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Com este novo sistema, que detecta áreas desmatadas menores que o DETER-A, o INPE passa a produzir um dado mais preciso para as ações de fiscalização do IBAMA. 

Estamos evoluindo para o DETER-C, que utiliza dados de satélites com resolução espacial entre 20 e 30 metros. Estamos utilizando o Resourcesat-2, que carrega a bordo o sensor LISS-3 (Linear Imaging Self-Scanning Sensor), com 23,5 metros de resolução; um imageador multiespectral do satélite DMC e também do DEIMOS, na classe de 22 metros; a câmera MUX, do CBERS-4, com 20 metros; e sensores do Landsat-8, com 30 metros. São cinco satélites. E por que precisamos de todos esses satélites? Precisamos de redundância de dados por causa da cobertura de nuvens na Amazônia. Com todos estes satélites temos um número maior de passagens no mês, que pode chegar a 10, aumentando a probabilidade de imagear regiões sem nuvens. A cobertura de nuvens é a principal dificuldade para o monitoramento da Amazônia por sistemas ópticos.

No período de outubro a março, a cobertura de nuvens é muito grande na Amazônia. Tendo em vista este problema, o CENSIPAM (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia) propôs um projeto, financiado pelo Fundo Amazônia, para  monitorar a Amazônia no período chuvoso, com uso de imagens de radar que "enxerga" através das nuvens. O INPE faz o monitoramento durante o período de seca, com sensores ópticos, e o CENSIPAM fará o monitoramento com imagens de radar no período chuvoso. Está previsto neste projeto que pesquisadores da OBT capacitem os especialistas do CENSIPAM no uso da tecnologia de radar e avaliem técnicas de detecção de desmatamento com imagens de radar.

Desde 2013 estamos trabalhando na elaboração de um projeto para o monitoramento da cobertura vegetal do cerrado, financiado pelo Banco Mundial e coordenado pelo MCTIC (...) espera-se que até 2020 a cobertura vegetal de todos os biomas esteja sendo monitorada


- Poderia comentar como foi essa inserção do monitoramento do desmatamento dos biomas no Plano Diretor?

Leila Fonseca – Mesmo antes do lançamento do Programa de Monitoramento dos Biomas pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), em 2015, já existia uma demanda para o monitoramento de outros biomas além da Amazônia. Em 2014, a OBT, em colaboração com o IBAMA, a Embrapa e a Universidade Federal de Goiás, começou a fazer o mapeamento do uso e cobertura da terra nas áreas já desmatadas no bioma cerrado para o ano de 2013. Desde 2013 estamos trabalhando na elaboração de um projeto para o monitoramento da cobertura vegetal do cerrado, financiado pelo Banco Mundial e coordenado pelo MCTIC. Participam pesquisadores da OBT, do CPTEC/INPE, que faz o monitoramento de queimadas, e também do CCST/INPE, que trabalha com emissões de gases do efeito estufa. O projeto está aprovado e já iniciamos a sua implementação, mas o monitoramento começa em 2017.  No caso do monitoramento, serão desenvolvidos sistemas similares ao PRODES e DETER para o cerrado, com o objetivo de quantificar a área desmatada e degradada e também prover dados de desmatamento diariamente para a fiscalização do IBAMA. Segundo o planejamento estratégico do MMA, espera-se que até 2020 a cobertura vegetal de todos os biomas esteja sendo monitorada. 

 


Segundo a coordenadora Leila Fonseca, o monitoramento do cerrado será realizado
no mesmo modo do PRODES e também do DETER


- Quais são os biomas?

Leila Fonseca – Além da Amazônia, Caatinga, Pantanal, Cerrado, Campos Sulinos e Mata Atlântica.

- Mas a Mata Atlântica, a OBT já faz. Terá alguma mudança?

Leila Fonseca – Na verdade a OBT não faz o monitoramento da Mata Atlântica. O responsável pelo monitoramento da cobertura vegetal da Mata Atlântica é a Fundação SOS Mata Atlântica, que elabora o Atlas dos remanescentes da Mata Atlântica. O pesquisador da OBT, Flavio Ponzoni, participa da elaboração e aprimoramento do Atlas desde o início dos anos 1990. Não sabemos ainda como vai ser a integração do que a Fundação SOS Mata Atlântica produz com a estratégia do Programa de Monitoramento Ambiental dos Biomas.  

- Todos os biomas serão monitorados como PRODES e DETER?

Leila Fonseca - Pelo Fundo Amazônia, para os biomas Pantanal, Caatinga, Campos Sulinos e Mata Atlântica está previsto apenas o PRODES, ou seja, o mapeamento de áreas desmatadas. Mas o projeto para o cerrado, financiado pelo Banco Mundial, fará o monitoramento como PRODES e também como DETER. Mas há uma demanda do IBAMA para que o INPE produza alertas de desmatamento em um sistema similar ao DETER da Amazônia para todos os biomas. A princípio consideramos que a Mata Atlântica, Pampa e Caatinga têm pouca ação de degradação que justifique um sistema de alerta, mas mesmo assim vamos avaliar esta questão. 

- O que mais está previsto no novo projeto financiado pelo Fundo Amazônia?

Leila Fonseca – Este projeto foi uma proposta do MMA para atender o Programa de Monitoramento Ambiental dos Biomas Brasileiros (PMABB). Nele, foi incluído o monitoramento da cobertura vegetal (PRODES) e queimadas dos biomas, mapas de nível de referência de emissões florestais (FREL- Forest Reference Emission Level) de carbono para as políticas do REDD+¹ , que permite a avaliação dos efeitos reais de políticas e medidas de redução de emissões de gases de efeito estufa. 

Foi também incluído o desenvolvimento de uma plataforma Cubo de Dados para o Brasil, uma plataforma de conhecimento para organizar, armazenar, acessar, processar e analisar grandes volumes de imagens de observação da Terra. Esta plataforma permitirá aos cientistas produzir informações sobre mudanças de uso e cobertura da terra nos biomas brasileiros de uma forma inovadora. O conceito de cubo de dados de observação da Terra tem recebido muita atenção nos últimos anos. Empresas como a Google, instituições como a Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, ou a agência Geoscience da Austrália, já desenvolveram plataformas similares. Esta é uma tendência, considerando a grande quantidade de dados a serem processados. 

Atualmente, os processamentos para gerar os mapas de desmatamento, degradação e uso da terra, nos projetos do Programa de monitoramento da Amazônia e demais biomas são realizados, em grande parte, por interpretação visual de imagens por especialistas em sensoriamento remoto. A ideia é automatizar algumas fases do processamento sem reduzir a acurácia com que os mapas são produzidos. Isso não é  uma tarefa tão simples. Para isto, temos que investir em novas metodologias para processamento e análise de grande base de dados. O desenvolvimento de tecnologias Big Data está no Plano Diretor 2016-2019 e já foi iniciado na OBT, através de um projeto temático aprovado na Fapesp.  

Os recursos vêm do pagamento de crédito de carbono, respaldado pela política do REDD+ (...) O programa de monitoramento da Amazônia contribui para esses esforços no Brasil ao produzir dados de monitoramento da Amazônia, de maneira consistente, desde 1988


- Todos esses projetos demandam muito trabalho de desenvolvimento e dependem de pessoal terceirizado, bolsistas, contratação de empresas, etc. Por outro lado, estamos passando por um momento de crise econômica e de cortes no orçamento. Os recursos do BNDES estão garantidos?

Leila Fonseca – Os recursos vêm do pagamento de crédito de carbono, respaldado pela política do REDD+ (do inglês Reduce Emissions from Deforestation and forest Degradation) e que se refere aos esforços conduzidos pelos países em reduzir emissões relacionadas ao desflorestamento e degradação de florestas. O programa de monitoramento da Amazônia contribui para esses esforços no Brasil ao produzir dados de monitoramento da Amazônia, de maneira consistente, desde 1988. Ainda há recursos do Fundo Amazônia que podem ser usados para financiar os projetos mencionados anteriormente e também outros. Além disso, temos a capacidade técnica no INPE muito reconhecida fora e dentro do país. 

 

 

Imagem Landsat-8, de julho de 2016, cobrindo região central do Mato Grosso, municípios de Cláudia
e vizinhos. Em tom verde, vegetação florestal, e, em vermelho, áreas já desmatadas, utilizadas, em geral, para atividades agropecuárias


Sim, nós sofremos muito com a perda de corpo técnico que vem acontecendo nos últimos anos. A expectativa de contratações via orçamento federal através de concurso é pequena. Com a captação de recursos externos, através desses projetos, podemos contratar pesquisadores e especialistas da área para trabalharem nos projetos. Procuramos direcionar as pesquisas dos alunos da pós-graduação de maneira que possam colaborar no desenvolvimento dos projetos da OBT. É o que estamos fazendo há muitos anos.

Por exemplo, a biblioteca TerraLib, que começou a ser desenvolvida em 2002 com um grupo pequeno de servidores da OBT, passou a ser importante para diferentes projetos e aplicações e passamos a contratar recursos humanos externos para ajudar na sua manutenção. Por algum tempo utilizamos recursos do orçamento do INPE, para contratação de pessoal para trabalhar no projeto afim de que ele atingisse um nível de maturidade que as aplicações demandavam. Depois, passamos a buscar projetos para capacitação de recursos externos para dar continuidade ao desenvolvimento das geotecnologias baseadas na TerraLib.

 


O TerraAmazon foi utilizado inicialmente no projeto PRODES, mas devido às suas facilidades,
como, por exemplo, ser multiusuário, foi incorporado a outros projetos, como o DETER e o DEGRAD

 

- Através do Fundo Amazônia?

Leila Fonseca – Nos últimos dois anos sim, parcialmente, através do projeto Monitoramento por Satélites da Amazônia (MSA), financiado pelo Fundo Amazônia, e iniciado em 2014. O aprimoramento do sistema TerraAmazon, um gerenciador de banco de dados que utilizamos no desenvolvimento dos projetos do programa de monitoramento da Amazônia, está no projeto MSA. Ele usa a biblioteca TerrraLib, uma biblioteca de código aberto desenhada para dar suporte a construção de aplicações úteis para a sociedade e a políticas públicas. 

Existem outras geotecnologias desenvolvidas a partir da TerraLib utilizadas por projetos internos e externos ao INPE. Por exemplo, a plataforma TerraMA2, usada para implantar sistemas de monitoramento e alerta de riscos, no projeto Queimadas (CPTEC e OBT) e em outros projetos de responsabilidade de outras instituições como a Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil S.A. (TBG) e a Defesa Civil em várias localidades do Brasil; o TerraME é um sistema de modelagem ambiental utilizado nos projetos do CCST/INPE e desenvolvido em cooperação com a OBT; o TerraHidro, um sistema integrado de modelagem hidrológica e utilizado pelo CPTEC, pela agência Nacional de Águas (ANA) e também pela Diretoria de Serviço Geográfico do Exército. 

O Plano Diretor 2016-2019 prevê o aprimoramento dessas geotecnologias. São planejadas e desenvolvidas novas versões que incorporam correções e novas funcionalidades que melhoram os sistemas. Isso permite a geração de novos serviços e produtos baseados em sensoriamento remoto para o monitoramento e a gestão territorial. 

Está prevista também a criação de geotecnologia de gerenciamento eficiente de culturas agrícolas energéticas. O projeto teve início com recursos da empresa de aviação Boeing, em 2014, que tem interesse de utilizar biocombustíveis em seus aviões. Trabalhamos por um ano e meio nesse projeto e desenvolvemos algumas ferramentas. Uma delas é o TerraMobile, uma aplicação para dispositivos móveis, como tablets e celulares, para a coleta de dados em campo e sua organização e atualização em um banco de dados geográfico em um servidor de dados escolhido. 

Em ambiente web, começamos a desenvolver o TerraBrasilis. Essa marca refere-se a um pacote de software que permite implementar uma camada de serviços sobre um banco de dados geográficos e acessível através de um portal web para disseminação de dados.  O TerraBrasilis facilita também a inclusão  de ferramentas de análise. O desenvolvimento desta ferramenta surgiu da necessidade de organizar e disseminar os dados produzidos nos projetos do Programa Amazônia. Nossa intenção é que essa ferramenta permita a análise dos dados para produção de informações importantes para políticas públicas ou para outras aplicações. A continuidade do desenvolvimento desta geotecnologia está garantida em um projeto coordenado pelo MCTIC e financiado pelo Banco Mundial, que deve iniciar em 2017.

Prevemos também no Plano diretor e PPA 2016-2019 a estruturação de um projeto de monitoramento dos impactos da expansão urbana e da atividade agrícola sobre a disponibilidade de água, para apoiar a gestão de recursos hídricos, mas ainda temos que trabalhar para captar recursos para implementar este projeto.

- Todo esse trabalho envolve o uso cada vez maior de imagens. Será necessário buscar dados de outros satélites? 

Leila Fonseca – Sim. A recepção dos dados dos satélites Sentinel, do Programa Copernicus, da Comissão Europeia, por exemplo, também está no Plano Diretor. São satélites que carregam sensores óticos e de radar. Estes dados seriam muito úteis para diversas aplicações como, por exemplo, monitoramento dos sistemas aquáticos e poluição por derramamento de óleo no mar. A Assessoria de Cooperação Internacional (ACI) do INPE, junto com a OBT, está trabalhando em um acordo de cooperação entre a Comissão Europeia e governo brasileiro para que o INPE receba os dados dos satélites Sentinel no INPE. Os dados serão acessados, sem custo, através de um Hub Internacional com conexão banda larga. Já temos grande parte do Brasil sendo imageada pelos satélites Sentinel, inclusive a região amazônica. Teremos também os dados dos satélites CBERS-4A e Amazonia-1 previstos para lançamento em 2018.  

Tem sido um desafio para a OBT trabalhar com menor número de pesquisadores (...) Temos que encontrar outras formas de fortalecer nossa atuação, continuar a fazer o que fazemos da melhor forma possível

 

- Você poderia fazer uma avaliação geral sobre a Pós-Graduação da OBT, incluindo também cursos, treinamento e produção científica?

Leila Fonseca – O curso de  pós-graduação de Sensoriamento Remoto (PGSER) da OBT, iniciada em 1972, é uma referência na sua área de atuação e atualmente tem a nota máxima 7 da CAPES. Muitos destes profissionais, formados no INPE, ocupam posições de destaque no mercado, no setor privado, em instituições e empresas públicas e em universidades. Foram mais de 600 profissionais formados nessa área de sensoriamento remoto: 564 mestres e 102 doutores. Em média, temos 20 alunos de mestrado e 9 de doutorado inscritos no curso PGSER por ano. São cerca de 100 alunos de pós-graduação circulando na OBT a cada ano, considerando que o período médio de formação dos alunos é de 30 a 55 meses para mestrado e doutorado, respectivamente. Temos, além dos cursos de pós-graduação, cursos de formação avançada em geotecnologias, com duração de 40 horas, cursos de especialização para professores e cursos em sensoriamento remoto a distância. Com estes cursos de curta duração, temos contribuído para a formação de um grande número de especialistas em sensoriamento remoto, um total de 2.100, desde 1997, e em geotecnologias, cerca de 4.700, desde 2000.


Curso sobre a plataforma TerraMA2 no Segundo Seminário Regional de Incêndios, em 2016,
promovido no âmbito da cooperação entre a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) e o INPE


A OBT é a área responsável pela PGSER, mas é importante observar também que temos servidores atuando como docentes e orientadores em outros programas do INPE, como o de Computação Aplicada (CAP) e de Ciência do Sistema Terrestre (CST). Isso é muito importante para a OBT pois é mais uma forma de cooperação entre as áreas.

Em relação às publicações científicas, mesmo com um grande número de aposentadorias na OBT, estamos conseguindo manter a média de publicações e a qualidade. Temos pesquisadores bastante produtivos na OBT, que publicam em periódicos prestigiados como Science, Nature, Proceedings of the National Academy of Sciences, Remote Sensing of Environment e Geophysical Research Letters. Neste ano, publicamos 44 artigos em periódicos internacionais e 15, em revistas nacionais. Pelo Google Scholar, dos 20 pesquisadores mais citados do INPE, 7 são da OBT, ou seja, 35%. Com muito esforço, estamos conseguindo manter uma boa produção científica. 

Além das pesquisas, também organizamos regularmente três simpósios, o que fomenta muito a produção científica: o Geoinfo, o Geopantanal e o Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto (SBSR), um dos maiores eventos do mundo na área de sensoriamento remoto. No último que realizamos, em 2015, reunimos mais de 1.100 participantes, que representaram 27 estados, incluindo o distrito federal, e 20 países. E como isso é possível? A nossa pós-graduação é muito forte, os alunos participam dos projetos, muitos se formam e ficam como bolsistas apoiando os projetos. As cooperações nacionais e internacionais com universidades, institutos de pesquisa, colaboradores externos e também parcerias com outras unidades do INPE ajudam a ampliar a produção científica. 

Tem sido um desafio para a OBT trabalhar com menor número de pesquisadores devido a aposentadoria e a falta de perspectiva de novos concursos para a contratação de pesquisadores. Temos que encontrar outras formas de fortalecer nossa atuação, continuar a fazer o que fazemos da melhor forma possível e manter nossa capacidade de publicar artigos científicos de qualidade, manter a relação com grupos de excelência, nacionais e internacionais, e desenvolver pesquisas e tecnologias inovadoras, levando em consideração a grande disponibilidade de dados de observação da Terra e as novas tecnologias espaciais. Na minha opinião, diante desse contexto, a OBT deve se reestruturar. 

- Mas reestruturar sem contratação e sem concurso?

Leila Fonseca - Tem que ser. Essa reestruturação deve focar em grandes projetos estruturantes e aderentes às missões institucionais. Isso é possível em torno de projetos como os de monitoramento de biomas, por exemplo. Poderíamos construir uma plataforma de monitoramento ambiental para os biomas brasileiros, estruturar e sistematizar uma base de dados de sensoriamento remoto, desenvolver metodologias e tecnologias de extração de informação para monitoramento ambiental e gestão territorial em escala nacional. Essas atividades poderiam fomentar as pesquisas e desenvolvimentos na área ambiental com pesquisadores de outras áreas. 

Na OBT já possuímos várias pesquisas e tecnologias que podem ser integradas nesta plataforma. Nessa proposta, o Centro de Dados do INPE é uma componente importante na geração de produtos com valor agregado. Quando falo em plataforma não estou falando de software, estou falando de desenvolvimento de pesquisas inovadoras dentro de uma estrutura organizada, em que alguns resultados poderiam se tornar operacionais. Nesta visão, a OBT teria que se integrar ainda mais com outras áreas do INPE como o LAC (Laboratório Associado de Computação e Matemática Aplicada), CCST e CPTEC.

Finalmente, acredito que a crise econômica e de recursos humanos que estamos vivendo no INPE hoje pode ser também um momento de oportunidade para repensar as nossas atividades e, a partir disso, avançarmos.

 

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