Previsão

O Uso de Geotecnologias na Prevenção de Desastres

Os desastres naturais são desencadeados por processos complexos que envolvem um grande número de variáveis geofísicas (relevo, vegetação, rios, precipitação, etc.) e humanas (população, ocupação do solo, pobreza, atividades econômicas, educação, etc.). Conseqüente, os planos preventivos envolvem uma grande quantidade de dados que precisam ser coletados, organizados, armazenados e analisados para serem transformados em informações passíveis de serem aplicadas no processo de prevenção.

As geotecnologias, representadas em especial pelo Sistema de Informação Geográfica (SIG), Sensoriamento Remoto e Sistema de Posicionamento Global (GPS), apresentam uma série de facilidades na geração e produção de dados e informações para o estudo de fen}ômenos geográficos, como os desastres naturais (Coppock, 1995). Utilizando estas ferramentas pode-se produzir informações em pouco tempo e com baixo custo, combinando informações de dados espaciais multi-fontes a fim de analisar as interações existentes entre as variáveis, elaborar modelos preventivos e dar suporte as tomadas de decisões (Bonham-Carter, 1996).

Tendo como base o ciclo de gerenciamento de desastres, na prevenção as geotecnologias são utilizadas para realizar principalmente a avaliação de risco (Figura 8), que compreende o inventário dos perigos ou ameaças (P), o estudo da vulnerabilidade (V) e o mapeamento das áreas de risco (R) (Pearson et al., 1991; Smith, 2000; Balaji et al., 2005). Num ambiente SIG, os principais dados de desastres naturais requeridos para uma análise de risco são (Balaji et al., 2005):

Dados sobre o tipo de perigo ou ameaça (escorregamentos, inundações, vendavais, terremotos, etc.), local de ocorrência, freqüência, magnitude, etc.;

Dados sobre o ambiente no quais os eventos danosos podem ocorrer: topografia, geologia, geomorfologia, hidrologia, uso da terra, etc.;

Dados sobre os elementos expostos: infra-estrutura urbana, edificações, população, dados socioeconômicos e agropecuários, etc.

Figura 8 - Parâmetros que envolvem uma análise de risco.


Na preparação as geotecnologias são utilizadas na definição de rotas de evacuação, identificação de abrigos e centros de operações de emergência, criação e gerenciamento de sistemas de alerta e elaboração de modelos meteorológicos e hidrológicos utilizados na previsão. Nesta fase as imagens de satélites são usadas para fornecer as informações de base para a identificação das características geográficas das áreas que são frequentemente afetadas pelos desastres, como também para realizar o monitoramento dos desastres naturais (Figura 9).

Figura 9 - Imagens do sensor MODIS da bacia do rio Taquari no Pantanal Mato Grossense durante a época cheia (a) e da época seca (b). Fonte: Souza Junior e Lacruz (2006).


Nas ações de resposta com um SIG é possível gerenciar de maneira eficiente e rápida, as situações mais problemáticas, como as ações de combate a sinistros (conter efeitos adversos) e de socorro às populações afetadas (busca e salvamento). No SIG, um banco de dados associados a um mapa da área urbana, poderá fornecer informações completas sobre abrigos, hospitais, polícia, bombeiro, entre outros. Já o GPS é extremamente útil nas operações de busca e salvamento em áreas que foram devastadas. Essas áreas ficam muitas vezes descaracterizadas dificultando a orientação e a localização de ruas e edificações.

Na reconstrução, as geotecnologias também são amplamente usadas na realização do inventário e avaliação dos danos (Figura 10) e na identificação de áreas seguras para a relocação e reconstrução das comunidades afetadas. Informações estas que posteriormente são inseridas em um banco de dados para serem utilizadas novamente na fase de prevenção e preparação.

Ressalta-se que os exemplos citados não limitam o uso das geotecnologias. Pelo contrário, novas aplicações, métodos e ferramentas surgem a cada dia. A flexibilidade é a uma das grandes vantagens das geotecnologias. Tudo pode ser adaptado em função dos projetos de prevenção, do fenômeno a ser analisado, da escala de trabalho e do orçamento disponível.

No Brasil as possibilidades de uso das geotecnologias são ainda mais promissoras, visto que já existem iniciativas de sucesso nesta área. O governo brasileiro, por meio do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), disponibiliza a qualquer instituição ou profissional o software SPRING (http://www.dpi.inpe.br/spring/) e as imagens do satélite CBERS (http://www.cbers.inpe.br). Basicamente, o SPRING é um SIG (Sistema de Informação Geográficas) com funções de processamento digital de imagens, mapeamento, análise espacial, modelagem numérica de terreno e consulta a banco de dados espaciais. O satélite CBERS (Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres) possui uma série de sensores que o tornam altamente capacitado para as aplicações na área de mapeamento e monitoramento ambiental. São duas poderosas geotecnologias que estão disponíveis gratuitamente para serem utilizadas na temática de desastres naturais pela sociedade brasileira.

Figura 10 - Mapa de intensidade dos danos causados pela passagem do Furacão Catarina no dia 28/03/2004 na região sul catarinense. Fonte: Marcelino et al. (2005).


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